quinta-feira, 28 de abril de 2016

Eu prefiro o surrealismo

Me lembro como se fosse ontem o dia que nos conhecemos, não que seja um grande marco na minha vida ou na sua, mas com certeza teve sua importância. Era um dia comum, sem grandes expectativas de nada novo ou extraordinário, apenas um compromisso familiar de noite. Minha prima se formara e resolvera fazer um jantar na casa dela pra comemorar com os amigos e familiares (por jantar eu digo pizza) e obviamente eu iria com meus pais e meu namorado de cinco anos, nada fora do comum.
Era ano de vestibular, as inscrições se aproximavam e eu ainda não tinha escolhido entre engenharia elétrica ou arquitetura, como sempre minha cabeça estava um puro caos. Conversa vai, conversa vem quando de repente ela me pergunta pra qual curso eu iria me inscrever e respondo que apesar de ter ido a todas as feiras de profissões de todas as universidades de Curitiba, eu ainda não tinha conseguido escolher. Então minha prima teve a ideia de me apresentar um amigo que cursava elétrica, quem sabe ele pudesse me ajudar a escolher melhor, iluminar um pouco minhas dúvidas sabe? Mal sabia ela que ele seria causa de dúvidas muito maiores no futuro.
A primeira coisa que reparei foram seus olhos: castanhos-cor-de-mel, combinando com o tom loiro escuro de seus cabelos e barba. O rosto tinha o formato perfeito misturado com aquele olhar de menino. Sua seriedade me deixou intrigada, curiosa. Por um instante me esqueci que meu namorado segurava minha mão. Por um instante me perdi na tempestade que era seus olhos castanhos-cor-de-mel. Quanto voltei a realidade apertei sua mão e me apresentei e logo em seguida me perguntei porque ele tinha me atraído. Não tinha nada a ver com meu "tipo" e nem com meu namorado.
Nos sentamos de frente um pro outro na sala de estar, meu namorado do meu lado, e começamos a conversar. Fiz todas as perguntas que me cercavam quanto à profissão, ao curso, a área que poderia atuar e ele respondeu cada uma delas com um brilho no olhar. Era óbvio que ele gostava do que fazia e que gostava da ideia de me ajudar a saber se eu também me encaixaria na profissão. O único momento que meu olhar desviou do dele foi pra olhar sua boca bem desenhada e imaginá-la colada na minha. De repente meu namorado era só um coadjuvante, pouco me importava quando ele apertava minha mão pra indicar que ainda estava ali. Volte a realidade. O que você está pensando? Você nem conhece esse cara. Seu namorado está desconfortável, faça alguma coisa sobre isso. Se mexa mulher. Pelo amor de Deus para de encará-lo e lamber os lábios.
Meu pai me arranca de solavanco do meu devaneio dizendo que é tarde e que devemos ir pra casa. Fiquei num misto de gratidão e tristeza, gratidão por me tirar do transe e tristeza ao pensar que nunca mais veria o amigo da minha prima. Começamos a nos despedir de todos e dizer o quanto foi um prazer conhecê-los, esse tipo de cordialidade altamente presente em despedidas, e eu deixei ele por último. Querido amigo imaginário, você precisa saber uma coisa sobre mim: eu sempre deixo o melhor pro final. Por que eu faço isso? Porque aí quando você chega nele é mais gostoso, se é comida você morde mais forte, se é um show sua expectativa fica mais alta. Meu pai me apressa. Corro os olhos pela sala e não o encontro. Merda. Onde ele foi? Preciso me despedir dele. Preciso? Por que eu preciso? Eu nem o conheço, que sensação mais estranha. Esses olhos são realmente lindos, nossa. Preciso demonstrar o quanto foi importante essa conversa pra ele saber que realmente me ajudou, que eu tô mais feliz agora do que antes. Ele pediu meu telefone pra conversarmos mais sobre minhas dúvidas, mas não me importo mais sobre isso. Quando um cara pede seu telefone significa que ele tem interesse, né?
Alguns dias se passaram e ele aparece nos meus amigos sugeridos do facebook, como o Mark Zuckerberg poderia saber que eu tinha conhecido ele? Adicionei. Será que ele percebeu que me interessei mais por ele do que pelo assunto? Deixa pra lá, não é como se a gente fosse conversar de novo mesmo. Vai ser só mais um daqueles amigos esquecidos do facebook, que tanto faz se estão ali ou não. Ele me aceita e eu vejo que o aniversário dele passou há uma semana, vou dar parabéns atrasado porque é educado e porque quero puxar assunto. Conversamos e conversamos até que ele pergunta se eu não quero encontrá-lo pessoalmente pra conversar melhor; óbvio que eu quero, mas o que meu namorado vai pensar? Antes que eu possa responder a mensagem meu namorado a lê e diz, num tom nervoso "é lógico que você não vai, ele tá claramente dando em cima de você". E é lógico que eu não vou, eu tenho namorado, não posso sair por aí pra conversar com conhecidos ridiculamente lindos e interessantes.
Quase dois anos se passaram e eu levei o famigerado pé na bunda. Chorei, esperneei e me perguntei porque ele não me amava mais. Como alguém deixa de amar assim, do nada? Ok, provavelmente não foi do nada, mas são cinco anos poxa. Não é possível que ele não sinta mais nada por mim. Foi 1/4 da vida dele dividida com a minha, não é possível que não me ame mais. E mesmo assim não ama. Ele não te ama mais. ELE NÃO TE AMA MAIS. E você, por que chora tanto? Será que amava mesmo ou era apego?
Finalmente decido que não tenho tempo a perder sofrendo, já chorei o que deveria, já me questionei demais. Todos os dias alguém tem o coração partido, você é só mais uma dessas pessoas. Mark Zuckerberg estranhamente me mostra aquele cara de elétrica nas imediações. Que engraçado, depois de tanto tempo ouvir esse nome de novo. Vou mandar uma mensagem, vai que ele se lembra de mim como eu me lembro dele. Vai que ele se interessa por mim como eu me interesso por ele. Vai que... Não, não crie expectativas, nem comece a pensar nisso. Conversamos e percebo que quero vê-lo pessoalmente, dessa vez nada me impede de colar naquela boca. Ele me chama pra sair (estranhamente inclui meu namorado no convite), eu aceito e aproveito pra informar que estou solteira e deixar claro meu interesse.
Passo a semana ansiosa esperando pelo sábado que combinamos nos encontrar na balada. Não é como se fosse um encontro, mas com certeza iam rolar uns beijos. Finalmente chegou o dia e, minha nossa, o que eu faço quando ver ele? Nunca fiz isso antes e não tenho ideia de como agir, chego beijando ou cumprimento como amigo? Vou deixar que ele tome uma iniciativa, decido, enquanto tento ficar calma. Por que eu tenho que ser essa pilha de ansiedade? Ele chegou. Fodeu. Fodeu. Fodeu. Calma, fica calma, não é nada demais. Não é um encontro e ele não vai ser seu namorado nem nada, relaxa mulher. Senti uma mão na minha cintura, tremi da cabeça aos pés. É ele, com certeza é ele, e de repente fico com medo dele não ser tudo o que eu me lembrava. Me viro e mal tenho tempo de dizer "oi" quando ele me puxa pra perto e me dá um beijo. Sinto suas mãos na minha cintura me apertando e seu corpo pressionado contra o meu enquanto brinco com os dedos nos seus cabelos. Nossa, que beijo, mal consigo respirar. Há quanto tempo eu não sentia isso com alguém, há quanto tempo eu não ficava sem fôlego. A noite passa num piscar de olhos, entre beijos e amassos bem dados eu me esqueço onde estou e, juro que por um instante, esqueço até meu nome. Quando chego em casa ainda não consigo acreditar como tudo mudou de repente; semana passada nesse mesmo horário eu chorava por um amor não correspondido. Agora eu tenho um sorriso idiota na cara e me sinto de novo como uma adolescente, é engraçado e assustador.
Se tem uma coisa que me faz perder o interesse é gente que não responde minhas mensagens. E ele nunca foi de responder na hora, mas visualizar e não responder era novidade. Será que ele só queria uns beijos e tchau? Que decepção, se eu quisesse só isso teria pegado qualquer gato aleatório na balada. Mando uma mensagem e espero ele responder. Espero. Espero. Finalmente ele responde, e é um choque! Ele diz na minha cara que só quer sexo casual e que não está "disponível" emocionalmente, boba eu que não percebi na hora o que isso significava. O que eu queria no momento era um amigo, namorar estava no último lugar da lista "o que fazer" de solteira.
Nossos horários malucos pareciam impossíveis de se encaixar e eu já estava subindo pelas paredes de vontade e ansiedade, até que (finalmente) conseguimos nos encontrar e rolou a continuação que eu tanto esperava. Foi... Decepcionante. Não sei se por idealizar demais, esperar demais ou por estar nervosa demais, mas não consegui "chegar lá" com ele. Parecia que não estávamos em sintonia, por mais que rolasse química e desejo de ambas as partes. Tentei não pensar muito nisso e esperar que a intimidade fizesse as coisas fluírem melhor, ledo engano. Tinha alguma coisa errada, alguma coisa faltando ali. Não sei dizer o que tinha de errado comigo, ele era lindo, gostoso e tinha pegada, então porque eu não conseguia sentir nada? Passaram-se alguns dias e ele já não falava tanto comigo, principalmente depois do feriado. Nada diferente do esperado, mas mesmo assim perguntei se íamos sair na quarta como o combinado, quando ele só visualizou e não respondeu eu entendi o recado. Tudo bem, eu sabia que acabaria tão de repente quanto começou e eu não sentia nada por ele (pelo menos não deveria sentir).
Chegou o sábado da outra semana e era aniversário da minha amiga, combinamos de nos encontrar no James com a ideia de só ir embora quando a casa fechasse. Quando entramos levei um susto, adivinha quem estava lá no bar de cara pra mim. O dono dos olhos castanhos-cor-de-mel mais lindos que eu já havia visto. Tive vontade de rir da cara de choque que ele fez, mas ao invés disso sorri com o meu mais lindo sorriso que diz eu-estou-ótima-sem-você e fui na direção dele, dei-lhe um beijo no rosto e saí. Não sei porque mas eu estava completamente irritada e nervosa, me sentindo trocada. Qual é, pelo que eu vi ela nem é tão bonita quanto eu e com certeza não é tão boa na cama. Droga, vou ter que beber pra esquecer esse turbilhão de emoções que não deveriam estar aflorando. Minha amiga o descreve e diz que está olhando na nossa direção enquanto dançamos. Isso mesmo, baba baby. Como se ele se importasse, é claro que não liga; ele está com outra pessoa. Aliás, por que eu quero que ele se importe? Encho a cara e de repente me sinto mais leve, capaz de fazer qualquer coisa e capaz de conquistar qualquer um que meu coração quiser. Beijo o primeiro cara bonito que vejo e imediatamente me arrependo. Acontece que a pessoa que eu quero está acompanhada de outra, me trocou por outra. Idiota, burra, ingênua. Você sabia que não havia nada entre vocês, então por que continua de sentindo substituída? O teto começa a girar e a música fica abafada, me forçando a sair da pista de dança e correr pra um abrigo. Eu preciso ficar sozinha. Vou ao banheiro e me sento tentando respirar, tentando acalmar meu peito que bate igual um tamborim de escola de samba. Que dor enorme me atinge, parece que o buraco aqui dentro está ainda maior do que antes. Estou bêbada, não posso chorar e borrar minha maquiagem, não passei horas me arrumando pra minha noite acabar desse jeito. Não consigo segurar e desabo abraçando minhas pernas contra meu peito. Passo alguns minutos soluçando até que uma garota me convence a abrir a porta e conversar com ela. Ela me acalma e me convence a não estragar tudo por um cara qualquer, porque é isso mesmo que ele é: só um cada qualquer com quem eu estava passando um tempo. Levantei a cabeça e aproveitei a noite como se fosse a última, sem sequer lembrar que ele estava lá, me proibindo de sentir ciúmes de algo que nunca me pertenceu.
Chega o domingo e eu acordo mais sã, questionando-me dos acontecimentos da noite anterior e do porquê haviam me afetado tanto. De repente nada mais faz sentido, o que eu tinha pra gostar nele? Nem sabia seu filme e livro favorito, qual cor gostava mais ou qual música fazia seu coração palpitar. Ele nem sequer sorria ou me fazia sorrir, não me fazia querer morar dentro do seu abraço. Acho que nem chegamos a nos abraçar verdadeiramente nesse breve período que nos envolvemos. Não havia nada pra se gostar ali, não havia nada nele. Os dias foram passando e cada dia eu me sentia mais tola por ter gastado minhas lágrimas por um desconhecido, cheguei até mesmo a gargalhar contando do acontecido à minha melhor amiga. Senti vergonha de mim mesma, mas não deixava de ser engraçado pensar como eu faço tempestade em copo d'água por qualquer coisinha. Quando finalmente paro de pensar sobre o acontecido eu recebo uma mensagem dele, perguntando se estou bem e logo em seguida um texto se explicando. Meu coração aperta de nervoso, não quero abrir e ler algo que vai me fazer cair de novo. Levo algum tempo pra me acalmar e abro as mensagens, leio umas duas ou três vezes pra acreditar no que tava escrito. Aparentemente ele tinha um relacionamento aberto e eles tinham resolvido fechar nesse feriado, após quase um ano de envolvimento. Ele poderia ter me contado que tinha um relacionamento aberto antes de eu entrar nessa, poxa. Achei estranho e me questionei porque alguém fica com outras pessoas se já está apaixonado, isso é algo que não faz sentido pra mim como essa garota boba que acredita na fidelidade e no amor. Passo mais ou menos um dia me questionando se deveria responder e questioná-lo ou não, afinal havia só uma curiosade, não necessidade em saber da resposta. Perguntei pra minha amiga o que ela achava e ela disse que nenhum homem seria capaz de me recusar porque sou, nas palavras dela, "gostosa demais". Seria legal se fosse esse o motivo dele, quer dizer que sou atraente de verdade e não é só minha mãe que me acha bonita. Resolvi perguntar e dizer que ele não me devia explicações (porque não devia mesmo) e esperei uma resposta que me fizesse bem a autoestima. Foi assim que eu percebi quão sem graça ele é - não foi o fato dele não responder minhas piadas de duplo sentido ou não parecer afetado com minhas indiretas/diretas picantes que eu jogava pra cima dele - com a resposta mais sem graça do universo. "Ela não mora aqui, então é complicado.", o que eu vi mesmo nele? Lá estava eu rindo da própria cara, aliviada por ter levado um fora e por perceber que não passava de fantasia quando achei que estava apaixonada.
Foi então que eu percebi que ele é como um daqueles quadros do pontilhismo que quando visto de longe te impressiona e fascina, mas quando você se aproxima fica sem forma e sem graça. Perde a essência do que o fez ser belo e atraente ao olhar.
Ele era como uma obra impressionista e me fez descobrir que prefiro muito mais a loucura do surrealismo.

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